A Verdade sobre o Ser

O beija flor representa na tradição tupi-guarani um elo de conexão entre os três mundos: mundo espiritual, mundo da alma, mundo terreno.
O beija flor representa na tradição tupi-guarani um elo de conexão entre os três mundos: mundo espiritual, mundo da alma, mundo terreno.

Comparando o que o pensamento da sabedoria oriental, africana e indígena afirmam sobre a definição do ser humano, fica claro que somos espírito e não matéria. Aprofundando um pouco mais a definição de espírito, que em sua raiz etimológica adquire também o sentido de “sopro”, existe a mesma equivalência na língua tupi,  cujo nome é “ayvu”. Assim, tradição tupi define o ser como um som, uma vibração.  Quando por sua vez comparamos com os estudos mais avançados da ciência de hoje, particularmente a física quântica; esta também define a matriz do ser como onda e vibração.

Então, como se manifesta essa luz/vibração que somos?  Isto é que é muito importante para absorvermos este conceito de profunda sabedoria. Simplesmente através de quatro aspectos do que nomeamos como fatores estruturantes da consciência:  o pensamento, o sentimento, a intuição e as sensações. em relação a estes aspectos, Carl Jung os considerou como funções psíquicas. Podemos então deduzir que aquilo que pensamos, sentimos, desejamos e intuimos são frequências vibratórias/luminosas em essência. E o que difere tais frequências é a maneira como cada indivíduo as qualifica.

Quando qualificamos algo, estamos dando sentido a algo. E aquilo que damos sentido, é vivo. Independente de ser algo de boa qualidade ou má qualidade, ou de ser uma expressão que gere terror, medo, raiva, ódio, compaixão, alegria, paz, etc. Procede do mesmo princípio, ou seja, é uma vibração. E a responsabilidade da qualidade da vibração é de quem a gerou.  Significa dizer que somos responsáveis pelo que pensamos, sentimos, intuímos e desejamos. Além disso, em cada uma destas instâncias, o que vibramos tem poder de vida, porque damos sentido ao que qualificamos.

Aquilo que damos sentido torna-se crença, hábito, valor, comportamento. E são estes elementos que tecem a nossa personalidade, ou aquilo que a sabedoria tupi-guarani chama de “Nhanderekó“, que significa, “Nosso jeito de ser.”   Por isso é importante refletirmos sobre nossas crenças, valores, comportamentos e habitos, pois isto nos dará pistas de como estamos qualificando nossas vidas através de nossa própria consciencia.

Embora as situações externas do mundo, do ambiente, das conjunturas sociais e econômicas influenciem a nossa realidade, na mesma proporção a influenciamos de acordo com a nossa maneira de expressarmos a consciência. O nosso mundo interior tem predomínio sobre o mundo exterior, porque a vida se expressa de acordo com as nossas projeções internas. Por isso o grande desafio e ao mesmo tempo a chave para  a manifestação de melhor em nós é o autoconhecimento. Pois quanto mais nos conhecemos em suas diversas camadas e níveis de crenças e valores, temos mais clareza e condições de irradiar e expressar o que nos é mais dignificante, harmônico, prazeroso, saudável e próspero.

Um terapeuta da conexão

O escritor, ambientalista e empreendedor social Kaká Werá
O escritor, ambientalista, terapeuta e empreendedor social Kaká Werá

Kaká Werá atua como psicoterapeuta há 25 anos na área da psicologia transpessoal e desenvolvimento de visão holística. Estudioso de cosmovisões indígenas, aprofundou-se no conhecimento da tradição tupi-guarani.

É Membro do Colégio Internacional dos Terapeutas (CIT). Professor da Unipaz (Universidade Holística da Paz). Escritor, empreendedor social e ativista ambiental.

Desenvolveu nestes anos um sistema de trabalho que relaciona vivencias e dinâmicas de grupo em ambientes de natureza preservada com o propósito de promover cura, integração e autoconhecimento. Estas atividades ocorrem em diversos estados no Brasil e também no exterior. Mas, de um modo mais sistemático no Rio Grande do Sul (Integria – Picada Café) ; Santa Catarina (Florianópolis/Blumenau); São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais através da UNIPAZ (Universidade Holística da Paz) e outras instituições.

Ao longo destes anos, após a passagem de milhares de pessoas por suas vivencias e imersões, e a partir da investigação de resultados em relação á obtenção de equilíbrio pessoal e expansão de consciência, Kaká Werá reuniu fundamentos da psicologia transpessoal e da sabedoria ancestral de povos, para criar um método que se caracteriza pelo alinhamento de três aspectos que formam o ser: ego-alma-espírito. O propósito é possibilitar, através de técnicas e conceitos apropriados; a auto expressão integrada do indivíduo, com suas capacidades co-criadoras despertas e conscientes.

Após uma especialização de aprimoramento pessoal em liderança e cothing no IDECOH (Instituto de Desenvolvimento da Conciência Humana), Kaká Werá percebeu que poderia agregar sua experiência em um processo de auto-conhecimento que possibilitasse apoiar pessoas na obtenção de clareza, autoliderança e tomada de decisões baseada no cerne da consciência: a alma. Mas em sintonia/alinhamento com um precioso instrumento de realização: a personalidade.

O procedimento se utiliza também de ferramentas clássicas do cothing, mas não se limita a elas, justamente por levar em considerações dimensões mais sutis do indivíduo, além do cérebro e da neurolinguística. Como a ideia é a clareza consciencional, este sistema é denominado KAN , pois esta palavra significa cabeça livre, ou plena, na língua tupi. No I Ching, esta palavra é um trigrama, associado á água, ao fluxo e ao insondável, cuja imagem é a água fluindo em um rio, sem obstáculos.

Além disso, contribuir na elucidação das questões da alma tem sido um dos grandes desafios atuais da sociedade humana. Neste momento coletivo, cada vez mais ansiamos por ancorar no mundo um propósito de vida fundado em valores, e isto passa pela compreensão e integração da essência e da complexidade que somos.

Conexão

A palavra conexão aqui está associada á capacidade de se integrar em três níveis de consciência: espiritual, anímico e Featured imagefenomênico, ou material. Na antiga tradição tupi-guarani estes níveis eram chamados de: mundo do alto, mundo do meio e mundo de baixo. Espírito, Alma e Matéria.

O beija-flor, chamado na língua tupi de mainoí, é o símbolo da conexão nos três mundos.

Trilhas do Ser: sete passos iniciáticos

trilhas1. A BENÇÃO DA CRISE: PERDIDO NA MATA

Tem-se dito que estamos em uma crise planetária gravíssima, de alto risco para a espécie humana. A desagregação dos ecossistemas, promovida pelas limitações da atual consciência humana, centrada na ganância, usurpação, exploração indiscriminada dos recursos, semi-escravização humana e outros fatos deploráveis – tem agravado situações sociais insustentáveis e gerado um sistema quase ininterrupto de pequenas e grandes crises.

No âmbito pessoal, estamos percebendo o agravamento também de diversos distúrbios: stress excessivo, depressões, cânceres, distorções no campo afetivo – individual e familiar -, surgimento de inúmeras “novas” doenças, etc. e fica a pergunta, onde é que vai dar isso? Para muitos, determinados tipos de crise levam á estafa, stress, doenças, depressões, traumas, e até á morte física.  Tudo dependerá de modo como cada pessoa acolherá o fato ou situação em que ela se encontra.  Podemos de um modo geral, observar alguns tipos de crise mais comum que todos nós, seres humanos. invariavelmente passamos:

  • Financeira
  • Relações afetivas
  • Auto estima
  • Identidade
  • Depressão
  • Falta de perspectiva
  • Espiritual

No entanto, do ponto de vista consciencional, a crise é um modo de possibilitar a evolução/maturação da alma. É a oportunidade de dissolver males gerados por situações conflitantes. Por isso, nesse sentido, ela pode ser também reconhecida como uma iniciação espiritual. Neste caso:

  • O primeiro passo é mudar o paradigma de acolher uma determinada situação negativa em sua vida que surge como sofrimento e acolhê-lo como aprendizado.
  • O segundo passo é identificar a causa mais profunda que originou a situação. E a causa pode estar relacionada com uma crença ou um valor errôneo ou uma distorção diante de fatos e situações vividas.
  • O terceiro passo trata-se da erradicação da distorção de crenças e valores que nos mantêm paralisados em determinada crise.

O acolhimento de situações, coisas e fatos que ocorrem em nossas vidas como lição é um exercício prático de auto-conhecimento, difícil e poderoso. Permite identificar causas e permite corrigir distorções, e para isso podemos nos servir de perguntas chaves, para nós mesmos, diante de nosso enredo pessoal.

As perguntas que devemos fazer para entender a crise como benção e sair da trilha que nos dá o sentimento de estarmos perdidos e entrarmos em uma trilha que nos direciona á um caminho claro são:

  1. O que esta(s) situação (ões) está querendo dizer em relação á qualidades da minha personalidade que não estou reconhecendo?
  2. Esta (s) situações se repetem ciclicamente em minha vida?
  3. Conheço alguém que passou pelo mesmo tipo de situação? Como atravessou?

2) A ENCRUZILHADA

Toda encruzilhada é a intersecção de dois caminhos, desafiando o caminhante á tomada de decisão, á dúvidas, á Podendo levar á soluções ou ao fundo do poço. O caminho do medo que cruza com o caminho da clareza. E a dimensão da clareza requer ver a nós mesmos partir de um coração amoroso.

Quanto mais uma pessoa vive sem consciência de si mesma, mais ela poderá ficar entre as forças do subconsciente, que ancora tanto as memórias, crenças e valores traumáticos, que formam o corpo dos medos; como também crenças, valores e memórias benéficas formando o corpo dos afetos que a movem em direção ao Amor. Ou seja, o ser sem consciência de si vive oscilando, titubeando pela vida, entremeando-a de fragmentos ora de dor, ora de felicidade, ora com certa neutralidade; passeando entre os seus três aspectos:

  • AVÁ = SUPRACONSCIENTE
  • NHENG= CONSCIENTE
  • BÔ = SUBSCONCIENTE

Na sabedoria ancestral tupy, estes são os três aspectos que formam o ser, e a partir do desenvolvimento, centramento e alinhamento consciencional destes aspectos é que o ser, como um Todo, evolui.Muitas vezes na vida ficamos em uma encruzilhada, tendo que decidir, escolher, apontar caminhos; e cada uma dessas vezes é uma pequena ou grande prova para a maturação de nosso ser.

Na encruzilhada temos decisões á tomar, e em algumas situações ficamos na dependência de dois irmãos gêmeos que nos habitam: Nhanderykei (o irmão menor) e Nhanderuvuçú (o irmão maior). O menor tem a tendência de nos conduzir á paralisia, á rigidez excessiva e ao medo. O maior tem a tendência de nos conduzir á mudanças, ao novo rumo, á Qual caminho escolher?Há quatro atitudes básicas diante de uma encruzilhada:

  • Fé/Confiança na melhor escolha
  • Fuga
  • Paralisia
  • Tomada de consciência e dissolução

A fé e a tomada de consciência são atitudes do “irmão mais velho que habita em nosso interior” que a sabedoria ancestral tupy nomeia de Nhanderuvuçu, que significa o “Eu Maior”. A fuga e a paralisia são atitudes do “irmão mais novo”, ou o ego, chamado em tupy de Nhanderykei.  Para que cada vez mais nossas decisões sejam tomadas pelo “Maior”em nós há que se cultivá-lo. E isto exige o silêncio e a contemplação como método.

3) O SACRIFICIO

Todas as culturas do mundo desde tempos remotos experienciaram/experienciam a prática do sacrifío.  No entanto, o entendimento e o sentido deste ato têm passado por alterações e distorções ao longo da história da presença humana na Terra.

As culturas indígenas das Américas praticavam o sacrifício humano, como oferenda aos deuses para obter algo em troca. Assim também como outras culturas. Existe ainda hoje a prática do sacrifício animal, no sentido de oferecer suas vidas, ou energia vital, á supostas forças/entidades superiores. Desse modo, o velho modelo do sacrifício como normalmente se entende está relacionado á:

  • Oferenda (oferecer algo menos valioso por algo mais valioso)
  • Sofrimento
  • Compensação (corrigir um suposto erro, pagar um preço)
  • Libertação

Na língua hebraica, a palavra para sacrifício é korban, que tem o significado de “se aproximar de Deus”. Na língua tupi a palavra é kandire, que significa “desprendimento”, ou seja, se desprender/desapegar de algo, mas sem esperar por nada em troca. Na língua latina esta palavra é a união de sacro (sagrado) e ofício (trabalho), nos dizendo que é o sagrado trabalho necessário para a evolução do ser. Na verdade, o sacrifício é o sagrado trabalho para sair de uma paralisia, de uma encruzilhada, de uma zona de conforto, para uma oitava superior, uma verdadeira melhora de sua condição; e para tal situação ocorrer é necessário o desprendimento de algo. Este é o correto sacrifício.

A sabedoria ancestral fala de três tipos de corretos sacrifícios:

  • Sacrifício do corpo – por exemplo: o jejum
  • Sacrifício da mente – por exemplo: o desprendimento de uma crença distorcida de si
  • Sacrifício da alma – por exemplo: o abandono de uma crença negativa/limitante que paralisa o ser.

No modelo em seu sentido mais profundo de sacrifício, a relação de oferenda também é revalidada, redimensionando-a em três tipos:

  • Oferenda da gratidão
  • Oferenda do louvor
  • Oferenda da celebração

Nesse sentido, para aqueles que têm necessidade de materializar a oferenda, acabam substituindo a matança de animais por mandalas de flores, de frutos, perfumes, cristais e incensos.

4) A NOITE ESCURA DA ALMA

A noite escura da alma é o momento crucial da crise. Esse termo vem de São João da Cruz, um monge espanhol que passou por um episódio de tal forma transformador que ele traduziu por este nome, que com o passar do tempo acabou sendo utilizado pela psicologia para explicar esse momento aos quais todos nós passamos em épocas e etapas muito singulares em nossas vidas.

É o momento em que questionamos todos os sucessos e nos confrontamos com todos os fracassos de nossas vidas. E reações profundas ocorrem. Algumas terrí Somos lançados á espaços interiores onde literalmente ficamos “sem chão” e com a sensação de estar “sem luz”.Nesse período alguns comportamentos desestruturantes da personalidade podem se manifestar, como:

  • Depressão profunda
  • Idéias de auto-aniquilamento
  • Fuga constante da realidade
  • Isolamento doentio

Porque isso ocorre? Devido á uma distorção que nos habita desde que nascemos, passamos a crer que somos matéria. Nesta perspectiva criamos um jogo com diversos enredos e tramas. Quando perdemos, nos angustiamos. Quando ganhamos, nos exaltamos. Até que um dia este jogo de opostos deixa de fazer sentido. É quando a noite mais profunda vem. Não existe uma única noite escura da alma, existem diversas, de intensidades também diversas. E cada qual nos dá uma lição, uma lapidação e um remodelamento de posições e atitudes, de valores e crenças.

5) A MORTE

O maior problema em relação á morte se deve ao fato de que nos negamos a conhecê-la. Vivemos como se ela não existisse e ao mesmo tempo morremos a cada dia. O povo Bororo tem a morte como sua principal companheira, senhora de um poderoso portal. O povo indígena do México tem a morte como uma santa, e ela é cultuada e celebrada.

OS CINCO ESTÁGIOS ESPIRITUAIS DA MORTE

“ Segundo o budismo, quais são então as nossas experiências nos derradeiros instantes da vida que agora vivemos? O Budismo explica que no momento da concepção a nossa consciência entra na matriz da mãe e toma como suporte a união das células masculina e feminina. Nos textos fala-se da essência branca do pai e da essência vermelha da mãe como os aspectos sutis dessas duas células que presidiram à nossa concepção e dizem que essas essências perduram durante toda a nossa vida. Por outro lado, tal como o mundo físico exterior, também o nosso corpo é formado pela interação dos cinco elementos ­– terra, água, fogo, ar e espaç No momento de morrer estes cinco elementos dissolvem-se uns nos outros e cada etapa desse processo é acompanhada por certas sensações particulares. Por último, a consciência dissolve-se na vacuidade e é aquilo que consideramos como sendo a morte, o momento em que o espírito e o corpo se separam. Nesse momento as essências branca e vermelha de que falamos dissolvem-se no coração. No final de todas as dissoluções o moribundo tem a experiência direta da luz clara, uma luminosidade que foi descrita como uma “aurora imaculada num céu de Outono perfeitamente limpo”. Essa é a consciência fundamental, a base de todos os outros níveis de consciência e a única que está sempre presente em todas as fases do contínuo da existência. “.Monja Tsering Paldron.

Na tradição indígena temos o kuarup, que é um dos rito de morte e transcendência mais conhecidos do Brasil. No entanto é pouco compreendido. Basicamente ele propõe a reverência e celebração por cada portal/elemento que integra o corpo físico que com a passagem do tempo o desintegra. E ele reconhece a imperfeição que é o ser humano dentro do seu ciclo de tempo/espaç Ele reconhece o principio da “impermanência” presente na natureza e o celebra, trazendo o viver para um grande “agora” fazendo do momento de origem e do momento de final um portal de transição.

Temos muita dificuldade de aceitar todos os tipos de mortes: de crenças, de hábitos, de comportamentos, de distorções sobre nós mesmos e sobre os outros. Temos a tendência de querer um mundo estático, como se o tempo e as transformações não fossem naturais, integrantes do processo evolutivo.

6) A PURIFICAÇÃO

A purificação é o resultado dos embates entre o irmão mais novo e o irmão mais velho que habita em nós, quando desse embate cristaliza-se uma límpida essência que jamais evaporará. Trata-se da sabedoria. A cada superação de cada etapa diante de circunstâncias e fatos que nos ocorrem nos tornamos mais conscientes de nós mesmos e de nossas potencialidades e possibilidades. Isto é o propósito da purificação.

Ancestralmente há três tipos de purificação:

  • A purificação do corpo – que apoia na eliminação de maus hábitos alimentares, comportamentos arraigados de determinados vícios e desagregação de padrões negativos automatizados.
  • A purificação da mente: que apoia na eliminação de padrões de crenças e valores limitantes.
  • A purificação do espírito: que elimina os diversos “eus” psicológicos gradativamente, conforme vamos galgando cada etapa evolutiva.

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Sobre o autor

livro 3Empreendedor, terapeuta social e ambientalista; Kaká Werá é reconhecido e premiado por ações  com foco em transformação de situações de dependência social para empoderamento sustentável em diversas comunidades do sudeste do Brasil nos últimos vinte anos. Conselheiro da Bovespa Ambiental&Social desde 2003. Membro de corpo de jurados do Premio Ford de Ecologia e do Premio Eco da Câmara do Comércio Exterior (AMCHAM), foi responsável por estímulo e fomento de inúmeros projetos verdes no terceiro setor e no meio empresarial.

Também foi fundador e integrante da URI (Iniciativa das Religiões Unidas), com cadeira na ONU, que promove o diálogo inter-religioso, desde 1998.

Especializou-se em educação em valores humanos, desenvolvimento pessoal e cultura de paz através de diversos cursos e formações no Brasil e no Exterior, sendo o mais significativo seu aprendizado na Índia, França e no Brasil com S.S. Dalai Lama.

Conferencista internacional, já palestrou em 10 países, entre eles: Inglaterra, Estados Unidos e Israel; abordando a sabedoria ancestral dos povos indígenas, ecologia e autoconhecimento.

A Visão do Branco (e outros tons)

A VISÃO DO BRANCO é o título do meu próximo livro. Trata-se de uma pequena coletânea de artigos e relatos que escrevi e entrevistas selecionadas entre os anos de 1992 até 2014. Alguns escritos foram publicadas inicialmente em revistas e jornais como “Isto É” , “Época” e “Folha de São Paulo”; outros em participação em seminários e congressos dedicados á questão indígena, ambiental e também aos estudos antropológicos e á psicologia transpessoal. Algumas palestras ocorreram fora do Brasil, em países como Inglaterra, França, Estados Unidos e India.   Em comum, estes escritos trazem um resumo de causas e questões as quais atuo nos últimos 25 anos: a causa indígena, a causa ambiental e a espiritualidade a partir de uma visão da sabedoria ancestral no Brasil.

Quando revejo que os temas aos quais participo desde meados da década de 1980, basicamente buscando resolução de conflitos entre culturas ancestrais e uma mentalidade destrutiva que se enraizou a partir da Europa aqui após o século XVI; são os mesmos que acompanha a nação brasileira: dizimação de etnias, preconceitos com remanescentes e descendentes de povos nativos, invasões em terras tradicionais por causa de ouro, madeira, espaço territorial; tudo isso causando desmatamento, doenças e misérias sociais. Infelizmente, dentro da linha do tempo histórico, observo que são esparsos e poucos os resultados em direção á justiça, inclusão social, equilíbrio ecológico e valorização da diversidade cultural.

No início dos anos noventa, havia uma visão no imaginário do Brasil de que o índio estava por desaparecer, até que uma situação ocorrida no coração da Amazônia; um terrível massacre contra os Ianomâmis, realizado por interesses de exploração do ouro e diamante na região no ano de 1993, revelou duas coisas: que as raízes que fundaram a nação brasileira não estavam sumindo e que o drama do relacionamento entre culturas ancestrais e aquelas que vieram após o período cabralino, que iniciou com o retalhamento do Brasil em capitanias hereditárias para exploradores aventureiros, ainda não havia se encerrado. Além disso, a morte de um pataxó ocorrida nesta mesma época em Brasília, vítima de jovens urbanos supostamente “civilizados” e bem educados, que atearam fogo no cidadão indígena em uma noite de triste memória; simbolicamente era a tentativa de atear fogo no Brasil mestiço, no Brasil caboclo, no Brasil daquele índio que, independente de nascer em uma floresta e ter uma validação antropológica para ser tutelado pelo estado; teimava em ser índio por herança genética, cultural e anímica; por isso lutava pelo seu espaço na sociedade.

No início dos anos 80, até o ano de 1992, convivi com os guaranis da região de Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo, área que demarca os limites da periferia paulistana e o início da Serra do Mar. Ali aprendi uma cosmovisão milenar e ao mesmo tempo que me deparei com uma triste realidade social de um povo na beira da metrópole, destituída de respeito e cuidados por parte da sociedade envolvente. Naquela época, perante a opinião pública, e também diante de determinadas visões supostamente antropológicas, aquele povo da serra que se estendia até o litoral paulista eram meramente chamados de caiçaras. Senti a necessidade de expor a visão dos guaranis para a metrópole paulistana e como estratégia fui atrás de espaços culturais e escolas para expor palestras e apresentações culturais. Com o tempo, isto evoluiu para um projeto mais definido com programas organizados em oficinas, workshops e intercambio de várias etnias do sudeste e do nordeste brasileiro participando e revelando suas táticas de resistência, sobrevivência e transformações sociais por qual passavam.

Nos anos 1990, remanescentes e descendentes de povos do nordeste e sudeste brasileiro, morando em bairros e favelas, iniciam um processo de retomada de orgulho de suas origens étnicas ancestrais e passam a buscar em suas memórias coletivas e na interação com diversos grupos de mesma matriz cultural, o reavivamento de suas identidades, valores, éticas, e maneiras próprias de organização social. Neste período fundei, em 1994, com minha esposa e a participação de amigos de algumas etnias nordestinas: pataxós, kariris, fulniôs, e caboclos; o Instituto Arapoty com a finalidade de valorizar estas identidades e ocupar espaços nas áreas urbanas para suas expressões. Criamos projetos, ações com focos em educação para valores humanos entremeados com empreendedorismo e geração de renda que me valeram o ingresso, em 2005, na Ashoka Empreendedores Sociais. Posteriormente, a convite da Bovespa, que fundou a Bovespa Social e Ambiental, passei a fazer parte de seu conselho em ações socioambientais.

Em São Paulo participei de movimentos como a Embaixada dos Povos da Floresta, no fim dos anos 1980, que agregou líderes como Chico Mendes, David Yanomami, Álvaro Tukano, Ailton Krenak, Moura Tukano, alguns Xavantes da Serra do Roncador e da região de Sangradouro, os Guaranis do litoral paulista; entre outros, que colaboraram para dar uma unidade á diversidade de culturas por desejos em comum de justiça social, participação cidadã, e cuidado ambiental.

A partir de 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) quando faz levantamento sobre cidadão já considera a pessoa que se autodeclara índio. Isto indica que houve uma abertura para o entendimento de que o índio é plural, mestiço e diverso. No entanto, os meios de comunicação ainda transmitem notícias referentes ás culturas indígenas somente relativas á questões onde predominam o folclorismo, o exotismo ou quando querem associá-los a um suposto estorvo ao progresso. A partir do ano de 2010, o censo estatístico revela que existem quase 900 mil pessoas de origem indígena no País. Espalhados em todos os estados do Brasil. Surpreendentemente os maiores contingentes estão em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Amazônia. Mais da metade destas pessoas vivem em áreas urbanas e enfrentam desafios nas áreas da: educação, saúde, cultura e inclusão social tanto quanto qualquer outro cidadão brasileiro.

A defesa das florestas, dos rios, do ar limpo e do manejo adequado aos recursos da Mãe Terra tem aproximado pessoas, povos e culturas milenares. Assim como a luta contra a discriminação e o racismo. Mas em pleno século XXI ainda existe, infelizmente, para uma grande parte da população; visões distorcidas a respeito das raízes ancestrais do Brasil e dos atuais frutos delas, com seus matizes e desafios contemporâneos . Por isso a proposta aqui é oferecer uma reflexão, sobre o branco do papel, ao percorrer as negras tintas que desenham palavras formando frases, parágrafos e gerando ideias, para refletirmos juntos, sobre que Brasil é esse que verdadeiramente somos.

Livros de Kaká Werá

livro 1
Todas As Vezes que Dissemos Adeus é um livro que reune fragmentos da vida pessoal do autor e sua relação com o povo guarani.
livro 3
Kaká Werá, escritor, utiliza-se da literatura como um veiculo de ativismo social.
livro 2
Tupã Tenondé é um livro que traz a cosmovisão milenar guarani.
conjunto de fábulas de origem tupy cujo personagem principal é a onça Iauaretê
conjunto de fábulas de origem tupy cujo personagem principal é a onça Iauaretê
Aborda a memória histórica do Brasil antes e depois de Cabral a partir do ponto de vista do índio.
Aborda a memória histórica do Brasil antes e depois de Cabral a partir do ponto de vista do índio.