A Visão do Branco (e outros tons)

A VISÃO DO BRANCO é o título do meu próximo livro. Trata-se de uma pequena coletânea de artigos e relatos que escrevi e entrevistas selecionadas entre os anos de 1992 até 2014. Alguns escritos foram publicadas inicialmente em revistas e jornais como “Isto É” , “Época” e “Folha de São Paulo”; outros em participação em seminários e congressos dedicados á questão indígena, ambiental e também aos estudos antropológicos e á psicologia transpessoal. Algumas palestras ocorreram fora do Brasil, em países como Inglaterra, França, Estados Unidos e India.   Em comum, estes escritos trazem um resumo de causas e questões as quais atuo nos últimos 25 anos: a causa indígena, a causa ambiental e a espiritualidade a partir de uma visão da sabedoria ancestral no Brasil.

Quando revejo que os temas aos quais participo desde meados da década de 1980, basicamente buscando resolução de conflitos entre culturas ancestrais e uma mentalidade destrutiva que se enraizou a partir da Europa aqui após o século XVI; são os mesmos que acompanha a nação brasileira: dizimação de etnias, preconceitos com remanescentes e descendentes de povos nativos, invasões em terras tradicionais por causa de ouro, madeira, espaço territorial; tudo isso causando desmatamento, doenças e misérias sociais. Infelizmente, dentro da linha do tempo histórico, observo que são esparsos e poucos os resultados em direção á justiça, inclusão social, equilíbrio ecológico e valorização da diversidade cultural.

No início dos anos noventa, havia uma visão no imaginário do Brasil de que o índio estava por desaparecer, até que uma situação ocorrida no coração da Amazônia; um terrível massacre contra os Ianomâmis, realizado por interesses de exploração do ouro e diamante na região no ano de 1993, revelou duas coisas: que as raízes que fundaram a nação brasileira não estavam sumindo e que o drama do relacionamento entre culturas ancestrais e aquelas que vieram após o período cabralino, que iniciou com o retalhamento do Brasil em capitanias hereditárias para exploradores aventureiros, ainda não havia se encerrado. Além disso, a morte de um pataxó ocorrida nesta mesma época em Brasília, vítima de jovens urbanos supostamente “civilizados” e bem educados, que atearam fogo no cidadão indígena em uma noite de triste memória; simbolicamente era a tentativa de atear fogo no Brasil mestiço, no Brasil caboclo, no Brasil daquele índio que, independente de nascer em uma floresta e ter uma validação antropológica para ser tutelado pelo estado; teimava em ser índio por herança genética, cultural e anímica; por isso lutava pelo seu espaço na sociedade.

No início dos anos 80, até o ano de 1992, convivi com os guaranis da região de Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo, área que demarca os limites da periferia paulistana e o início da Serra do Mar. Ali aprendi uma cosmovisão milenar e ao mesmo tempo que me deparei com uma triste realidade social de um povo na beira da metrópole, destituída de respeito e cuidados por parte da sociedade envolvente. Naquela época, perante a opinião pública, e também diante de determinadas visões supostamente antropológicas, aquele povo da serra que se estendia até o litoral paulista eram meramente chamados de caiçaras. Senti a necessidade de expor a visão dos guaranis para a metrópole paulistana e como estratégia fui atrás de espaços culturais e escolas para expor palestras e apresentações culturais. Com o tempo, isto evoluiu para um projeto mais definido com programas organizados em oficinas, workshops e intercambio de várias etnias do sudeste e do nordeste brasileiro participando e revelando suas táticas de resistência, sobrevivência e transformações sociais por qual passavam.

Nos anos 1990, remanescentes e descendentes de povos do nordeste e sudeste brasileiro, morando em bairros e favelas, iniciam um processo de retomada de orgulho de suas origens étnicas ancestrais e passam a buscar em suas memórias coletivas e na interação com diversos grupos de mesma matriz cultural, o reavivamento de suas identidades, valores, éticas, e maneiras próprias de organização social. Neste período fundei, em 1994, com minha esposa e a participação de amigos de algumas etnias nordestinas: pataxós, kariris, fulniôs, e caboclos; o Instituto Arapoty com a finalidade de valorizar estas identidades e ocupar espaços nas áreas urbanas para suas expressões. Criamos projetos, ações com focos em educação para valores humanos entremeados com empreendedorismo e geração de renda que me valeram o ingresso, em 2005, na Ashoka Empreendedores Sociais. Posteriormente, a convite da Bovespa, que fundou a Bovespa Social e Ambiental, passei a fazer parte de seu conselho em ações socioambientais.

Em São Paulo participei de movimentos como a Embaixada dos Povos da Floresta, no fim dos anos 1980, que agregou líderes como Chico Mendes, David Yanomami, Álvaro Tukano, Ailton Krenak, Moura Tukano, alguns Xavantes da Serra do Roncador e da região de Sangradouro, os Guaranis do litoral paulista; entre outros, que colaboraram para dar uma unidade á diversidade de culturas por desejos em comum de justiça social, participação cidadã, e cuidado ambiental.

A partir de 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) quando faz levantamento sobre cidadão já considera a pessoa que se autodeclara índio. Isto indica que houve uma abertura para o entendimento de que o índio é plural, mestiço e diverso. No entanto, os meios de comunicação ainda transmitem notícias referentes ás culturas indígenas somente relativas á questões onde predominam o folclorismo, o exotismo ou quando querem associá-los a um suposto estorvo ao progresso. A partir do ano de 2010, o censo estatístico revela que existem quase 900 mil pessoas de origem indígena no País. Espalhados em todos os estados do Brasil. Surpreendentemente os maiores contingentes estão em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Amazônia. Mais da metade destas pessoas vivem em áreas urbanas e enfrentam desafios nas áreas da: educação, saúde, cultura e inclusão social tanto quanto qualquer outro cidadão brasileiro.

A defesa das florestas, dos rios, do ar limpo e do manejo adequado aos recursos da Mãe Terra tem aproximado pessoas, povos e culturas milenares. Assim como a luta contra a discriminação e o racismo. Mas em pleno século XXI ainda existe, infelizmente, para uma grande parte da população; visões distorcidas a respeito das raízes ancestrais do Brasil e dos atuais frutos delas, com seus matizes e desafios contemporâneos . Por isso a proposta aqui é oferecer uma reflexão, sobre o branco do papel, ao percorrer as negras tintas que desenham palavras formando frases, parágrafos e gerando ideias, para refletirmos juntos, sobre que Brasil é esse que verdadeiramente somos.

Publicado por

Kaká Werá

escritor, terapeuta social, cothing

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